Demócrito Rocha – Jornalista – Poeta

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Foto de Demócrito Rocha – Capa do livro sobre o poeta de autoria do Médico Cleto Pontes

Demócrito Rocha
* Caravelas, BA – 14 de Abril de 1888 d.C
+ Fortaleza, CE – 29 de Novembro de 1943 d.C

Demócrito Rocha fundou o jornal O Povo, no Ceará, em 1928. Ele era dentista e funcionários dos Correios e telégrafos.

Intelectual, deputado federal e jornalista combativo, era casado com Creusa do Carmo Rocha,de quem teve duas filhas: Albanisa Rocha Sarasate e Maria Lucia Rocha Dummar.

Outro cearense autêntico nascido fora do Estado, como inúmeros poetas que tiveram mais origem num berço cultural e literário do que num berço genetlíaco. Demócrito Rocha nasceu na cidade interiorana da Bahia, Caravelas, no dia 14 de abril de 1888. A luta pela vida começa cedo, pois ao perder os pais ainda menino, teve que enfrentar o duro trabalho, como operário numa estrada de ferro.

A despeito disso, quando foi residir em Aracaju, tendo uma passagem rápida por Salvador (1907), já estava em condições de cursar a Escola de Odontologia de Sergipe. Enfrenta, então, um concurso para a carreira de telegrafista.

Aprovado, parte para servir no Ceará, onde vai cumprir o seu destino traçado pelo jornalismo e as Musas.

Em Fortaleza, Demócrito Rocha retoma o curso na Faculdade de Farmácia e Odontologia, formando-se em 1921. Esta década de 20 vai ser importante para o já então poeta e jornalista, pois funda, em 1929, o órgão literário Maracajá, tido na terra de Alencar como a “revista literária que o paladino e trincheira do movimento modernista no Ceará”.

Quando Demócrito Rocha fundou o jornal diário, O Povo, que se transformaria numa espécie de cartão de visita do Ceará, o Maracajá passou a circular como um dos seus suplementos. Por um lado, O Povo combatia os “desregramentos políticos da época”, e por outro, o Maracajá abrigava a produção dos poetas e intelectuais da terra, onde o próprio Demócrito Rocha publicou a maioria de seus poemas, curiosamente sempre assinados com o pseudônimo de Antônio Garrido.

Poesia de forte cunho telúrico, senão regionalista, para quem praticou tal arte pelo final da década de 20, a ousadia do poeta se revela nos seus versos livres, com uma dicção discursiva e vocabulário numa mistura de requinte e simplicidade. Lamentam ainda hoje os cearenses que a obra poética de Demócrito Rocha não tenha sido recolhida em livro, em edição sistemática e estudo analítico. Pelo menos um de seus poemas, O Rio Jaguaribe, ganhou foros de imortalidade, aparecendo em várias antologias.

Demócrito Rocha pertenceu à Academia Cearense de Letras.

Rio Jaguaribe
Demócrito Rocha

O Rio Jaguaribe é uma artéria aberta
por onde escorre
e se perde
o sangue do Ceará.
O mar não se tinge de vermelho
porque o sangue do Ceará
é azul …

Todo plasma
toda essa hemoglobina
na sístole dos invernos
vai perder-se no mar.

Há milênios… desde que se rompeu a túnica
das rochas na explosão dos cataclismos
ou na erosão secular do calcário
do gnaisse do quartzo da sílica natural …

E a ruptura dos aneurismas dos açudes…
Quanto tempo perdido!

E o pobre doente – o Ceará – anemiado,
esquelético, pedinte e desnutrido -
a vasta rede capilar a queimar-se na soalheira -
é o gigante com a artéria aberta
resistindo e morrendo
resistindo e morrendo
resistindo e morrendo
morrendo e resistindo…

(Foi a espada de um Deus que te feriu
a carótida
a ti – Fênix do Brasil.)

E o teu cérebro ainda pensa
e o teu coração ainda pulsa
e o teu pulmão ainda respira
e o teu braço ainda constrói
e o teu pé ainda emigra
e ainda povoa.

As células mirradas do Ceará
quando o céu lhe dá a injeção de soro
dos aguaceiros -
as células mirradas do Ceará
intumescem o protoplasma
(como os seus capulhos de algodão)
e nucleiam-se de verde
- é a cromatina dos roçados no sertão…

(Ah, se ele alcançasse um coágulo de rocha!)

E o sangue a correr pela artéria do rio Jaguaribe…
o sangue a correr
mal que é chegado aos ventrículos das nascentes …
o sangue a correr e ninguém o estanca…

Homens da pátria – ouvi:

- Salvai o Ceará!

Quem é o presidente da República?
Depressa
uma pinça hemostática em Orós!

Homens -
o Ceará está morrendo, está
esvaindo-se em sangue …

Ninguém o escuta, ninguém o escuta
e o gigante dobra a cabeça sobre o peito
enorme,
e o gigante curva os joelhos no pó
da terra calcinada,
e
- nos últimos arrancos – vai

morrendo e resistindo
morrendo e resistindo
morrendo e resistindo

Alphonsus de Guimaraens Filho – Poeta

Foto de Alphonsus de Guimaraens Filho

Alphonsus de Guimaraens Filho
+ Mariana, MG. – 3 de Junho de 1918 d.C

Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais na Faculdade de Direito da Universidade de Minas Gerais, em Belo Horizonte, em 1940. No mesmo ano foi publicado seu primeiro livro de poesia, Lume de Estrelas, pelo qual recebeu o Prêmio de Literatura da Fundação Graça Aranha e Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras.

Na época, trabalhava na Rádio Inconfidência, serviço de Rádio-Difusão do Estado. Em 1946 publicou Poesias; seguiram-se A Cidade do Sul (1948), Poemas Reunidos, 1935/1960 (1960), Antologia Poética (1963).

Em 1962 foi eleito membro da Academia Marianense de Letras. Em 1974, conquistou o Prêmio Luísa Cláudio de Sousa, pelo livro Absurda Fábula (1973). Em 1985, ganhou o Prêmio Jabuti de Poesia, pelo livro Nó (1984).

A obra de Alphonsus de Guimaraens Filho é situada pela crítica como integrante da terceira geração do Modernismo.

ATIVIDADES LITERÁRIAS/CULTURAIS
1937/1946 – Belo Horizonte MG – Trabalho na Rádio Inconfidência (Serviço de Rádio-Difusão do Estado)

1940 – Belo Horizonte MG – Publicação de Lume de Estrelas, primeiro livro de poesia

1941 – Belo Horizonte MG – Reingressa no jornalismo no jornal católico O Diário

1955/1974 – Organizador de antologias de poetas como Antero de Quental, Alphonsus de Guimaraens, Augusto Frederico Schmidt e Gonçalves Dias

HOMENAGENS/TÍTULOS/PRÊMIOS

1941 – Rio de Janeiro RJ – Prêmio de Literatura da Fundação Graça Aranha e Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras, pelo livro Lume de Estrelas

1951 – Prêmio Manuel Bandeira, pelo livro O Irmão, concedido pelo Jornal de Letras

1953 – Belo Horizonte MG – Prêmio de Poesia Cidade de Belo Horizonte, pelo livro O Mito e o Criador, concedido pela Prefeitura

1962 – Mariana MG – Eleito membro da Academia Marianense de Letras

1974 – Rio de Janeiro RJ – Prêmio Luísa Cláudio de Sousa, pelo livro Absurda Fábula, concedido pelo Pen Clube do Brasil

1976 – Rio de Janeiro RJ – Decreto denominando Lume de Estrelas uma rua no bairro do Méier

1985 – São Paulo SP – Prêmio Jabuti de Poesia, pelo livro Nó, concedido pela Câmara Brasileira do Livro

Claudio Manuel da Costa – Poeta

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Cláudio Manuel Da Costa
* Ribeirão do Carmo, (Mariana) MG. – 1789 d.C.
+ Vila Rica (Ouro Preto), MG. – 4 de Julho de 1789 d.C.

Ai Nise Amada…

Ai Nise amada! se este meu tormento,
se estes meus sentidíssimos gemidos
lá no teu peito, lá nos teus ouvidos
achar pudessem brando acolhimento;

como alegre em servir-te, como atento
meus votos tributara agradecidos!
Por séculos de males bem sofridos
trocara todo o meu contentamento.

Mas se na incontrastável pedra dura
de rigor há correspondência
para os doces afetos de ternura,

cesse de meus suspiros a veemência;
que é fazer mais soberba a formosura
adorar o rigor da resistência

Cláudio Manuel da Costa, advogado, magistrado e poeta.

É Patrono da Academia Brasileira de Letras - Cadeira nº8, por escolha do fundador Alberto de Oliveira – Glauceste Saturnino (ou Glauceste Satúrnio), pseudônimo do autor, faz parte da transição do Barroco para o Arcadismo. Seus sonetos herdaram a tradição de Camões.

Era filho de João Gonçalves da Costa, lavrador e minerador, no sítio da Vargem do Itacolomi , e de Teresa Ribeiro de Alvarenga. Fez os primeiros estudos em Vila Rica; passou depois ao Rio de Janeiro, onde cursou Filosofia no Colégio dos Jesuítas. Em 1749, aos vinte anos de idade, seguiu para Lisboa e daí para Coimbra, em cuja Universidade se formou em Cânones, em 1753. Ali publicou, em opúsculos, pelo menos três poemas, Munúsculo métrico, Labirinto de amor e o Epicédio consagrado à memória de Frei Gaspar da Encarnação.

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Vista de Ouro Preto
Pintura de Alberto da Veiga Guignard
Óleo s/ tela

Entre 1753 e 54 recolheu ao Brasil, dando-se à advocacia em Vila Rica (hoje Ouro Preto), jurista culto e renomado da época, ali exerceu o cargo de procurador da Coroa, desembargador, também exerceu por duas vezes o importante cargo de secretário do Governo. Por incumbência da Câmara de Ouro Preto elaborou “carta topográfica de Vila Rica e seu têrmo” em 1758.

Tornou-se conhecido principalmente pela sua obra poética e pelo seu envolvimento na Inconfidência Mineira. Contudo, foi também advogado de prestígio, fazendeiro abastado, cidadão ilustre, pensador de mente aberta e mecenas do Aleijadinho. Estudou cânones em Coimbra e há quem acredite que ele tenha traduzido a obra de Adam Smith para o português, mas isso nunca foi muito bem fundamentado.

Vida
Por sua idade, boa lição clássica, fama de douto e crédito de autor publicado, exerceu Cláudio da Costa ali uma espécie de magistério entre os seus confrades em musa, maiores e menores, que todos lhe liam as suas obras e lhe escutavam os conselhos, era uma das figuras principais da Capitania.
Aos sessenta anos foi comprometido na chamada Conjuração Mineira. Preso e, para alguns, apavorado com as conseqüências da tremenda acusação de réu de inconfidência, morreu em circunstâncias obscuras, em Vila Rica, no dia 4 de julho de 1789, quando teria se suicidado na prisão.

Foi secretário de vários governadores, poeta admirado até em Portugal e advogado dos principais negociantes no seu tempo. Acumulou ampla fortuna e sua casa em Vila Rica, era uma das melhores da capital.

A memória de Cláudio Manuel da Costa, porém, não teve a mesma sorte. Até hoje paira sobre ele a suspeita de ter sido um miserável covarde que traiu os amigos e se suicidou na prisão. Outros negam até a própria relevância da sua participação na inconfidência mineira, pintando-o como um simples expectador privilegiado, amigo de Tomás Antônio Gonzaga e Alvarenga Peixoto, freqüentadores assíduos dos saraus que ele promovia.

Cláudio tentou ele próprio, diminuir a relevância da sua participação na conspiração, mas estava apenas tentando reduzir o peso da sua culpa diante dos juízes da devassa. Os clássicos da historiografia da inconfidência mineira são unânimes em valorizar sua participação no movimento. Parece que ele era meio descrente com as chances militares da conspiração. Mas não deixou de influenciar no lado mais intelectualizado do movimento, especialmente no que diz respeito à construção do edifico jurídico projetado para a república que pretendiam implantar em Minas Gerais, no final do século XVIII.

De qualquer modo José Pedro Machado Coelho Torres, juiz nomeado para a Devassa de 1789 em Minas Gerais, dele diz o seguinte: “O Dr. Cláudio Manoel da Costa era o sujeito em casa de quem se tratou de algumas cousas respeitantes à sublevação, uma das quais foi a respeito da bandeira e algumas determinações do modo de se reger a República: o sócio vigário da vila de S. José é quem declara nas perguntas formalmente”

Morte
Assassinato ou suicídio?

O ponto mais crítico da biografia do poeta inconfidente vem a ser a suspeita do seu suicídio. Sua morte está cercada de detalhes estranhos. Há mais de duzentos anos que o assunto suscita debates e há argumentos de peso tanto a favor como contra a tese do suicídio. Os partidários da crença de que Cláudio Manuel da Costa tenha se suicidado se baseiam no fato de que ele estava profundamente deprimido na véspera da sua morte.

Isso está estampado no seu próprio depoimento, registrado na Devassa. Além disso, seu padre confessor teria confirmando seu estado depressivo a um frade que trouxe o registro à luz. Os partidários da tese de que Cláudio tenha sido assassinado, contestam tanto a autenticidade do depoimento apensado aos autos da Devassa, quanto à honestidade do registro do frade.

Quem acredita na tese do assassinato se baseia em um argumento principal: o próprio laudo pericial que concluiu pelo suicídio. Pelo laudo, o indigitado poeta teria se enforcado usando os cadarços do calção, amarrados numa prateleira, contra a qual ele teria apertado o laço, forçando com um braço e um joelho. Muitos acreditam ser impossível alguém conseguir se enforcar em tais circunstâncias.

O historiador Ivo Porto de Menezes relata que ao organizar antigos documentos relativos à Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar de Ouro Preto, em 1957 ou 1958, encontrou no livro de assentos dos integrantes da Irmandade de São Miguel e Almas, a anotação da admissão de Cláudio Manuel e à margem a observação de que havia “sufragado com 30 missas” a alma do falecido, e “pago tudo pela fazenda real”. De igual forma procedera a Irmandade de Santo Antônio, que lançou em seu livro: “falecido em julho de 1789. E feitos os sufrágios.” Relembra que havia à época proibição de missas pelos suicidas.

Também Jarbas Sertório de Carvalho, em ensaio publicado na Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, defende com boa documentação a tese do assassinato.

Há ainda quem acredite que o próprio governador, Visconde de Barbacena, esteve envolvido na conspiração e Cláudio teria sido eliminado por estar disposto a revelar isso. Mas o fato é que somente a tese do suicídio pôde se lastrear em documentos, ainda que duvidosos quanto a sua honestidade e veracidade, como bem salientam os adeptos da tese de assassinato.

Assim, a própria História continua pendente quanto às verdadeiras circunstâncias da morte de Cláudio Manuel da Costa e isso continua a ser o ponto mais marcante da sua biografia, não obstante estar sua vida plena de passagens notáveis.

Dez dias depois da sua morte, a população de Paris tomava a fortaleza da Bastilha, marcando o início do fim da dinastia dos gloriosos Luíses de França. Começava a tomar corpo então, um projeto político, sonhado pelo próprio Cláudio Manuel da Costa para seu país. Demoraria, no entanto, mais trinta anos para que o Brasil se tornasse liberto de Portugal. Cem anos a mais seriam necessários para a realização da segunda parte do sonho, a implantação do regime republicano no Brasil.

Cláudio Manuel da Costa já foi retratado como personagem no cinema e na televisão, interpretado por Emiliano Queiroz no filme “Tiradentes” (1999), Fernando Torres no filme “Os Inconfidentes” (1972) e na novela “Dez Vidas” (1969) e Carlos Vereza no filme “Aleijadinho – Paixão, Glória e Suplício” (2003).

Obras
* Epicediu – Coimbra, 1753.

* Labirinto de amor, poema – Coimbra, 1753.

* Númerosos harmônicos – Coimbra, 1753.

* Obras Poéticas – Coimbra, 1768

* Vila Rica, 1773

* Soneto

* Entre o Velho e o Novo Mundo

* Poesias diversas – Revista Brazileira, Rio de Janeiro, 1895 (post.).

* Minusculo métrico, romance heróico – Coimbra 1751.

Textos compilados da internet e do livro História da Literatura Brasileira, de José Veríssimo, obra que está em domínio público.