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Caio Valério Catulo
* Verona, Itália – 84 a.C
+ Roma, Itália – 54 a.C
Sofisticado e polêmico poeta lírico, nascido em Verona. Viveu em Roma, durante o final do período republicano.
Catulo se liga a um círculo de poetas de ideais estéticos comuns, os quais, Cícero chama de poetas novos (modernos), termo este, carregado de sentido pejorativo. Esse grupo de poetas rompia com o passado literário romano (mitológico), passando, entre outras características, a utilizar uma temática considerada “menor” pelos seus críticos.
Acrescenta-se às características da poesia de Catulo, a linguagem coloquial (Ex. Ineptire, no canto VIII), a simulação freqüente de improviso na sintaxe (frases interrompidas por orações paratéticas, repetição de palavras e expressões, movimento circular da elocução), versos ligeiros e a simulação do acesso aos recantos mais íntimos do homem.
Educado em Roma iniciou-se escrevendo poemas e panfletos políticos, sátiras a personagens da época, inclusive Júlio César e Pompeu, e recriações mitológicas e temas eróticos. Considerado o maior lírico deste período e de toda a literatura, compôs mais de cem trabalhos, entre eles o Poemeto de natureza épica Para as núpcias de Peleu e Tétis.
Sua paixão desenfreada por Lésbia – o verdadeiro nome da musa era Clódia – produziu uma poesia elegante e sincera, mas muito livre, da qual sobreviveram 114 poemas. Emociona também as 25 poesias que escreveu quando da morte do irmão.
*****
Vivamos, minha Lésbia, e nos amemos,
sem dar o mínimo valor a todos
os boatos dos velhos mais severos.
Os sóis podem pôr-se
e depois voltar,
mas para nós, uma vez que se ponha
nossa breve luz,
a noite deverá ser um perpétuo
e único sono.
Dê-me mil beijos, e em seguida cem,
e depois mil outros,
depois mais cem, e em seguida outros mil
sem interrupção, e em seguida cem.
Depois, quando tivermos completado
muitos mil, teremos
já perdido a conta
para não termos limite e nenhum
mal-intencionado
possa nos invejar por saber quantos
beijos foram dados.
*****
Depois de transpor muitos povos e muitos mares,
eu chego, irmão, a estas tristes exéquias
para trazer-te a derradeira oferenda fúnebre
e falar, mas em vão, à tua cinza muda,
já que a Fortuna, ai!, me separou de ti mesmo
e indignamente te arrebatou de mim.
Agora, porém, conforme à velha tradição
dos antepassados, aceita a magoada
oferenda fúnebre regada de fraterno
pranto, e para sempre, irmão, adeus e salve.
Sua obra se perpetuou através dos séculos que se seguiram, foi exemplo para grandes nomes que vieram depois como Propércio e Tibulo. Também foi muito lido por poetas como T. S. Eliot e Charles Baudelaire.
Catulo pertencia a um grupo de poetas denominados poeta novus e a importância dele é fundamental para caracterizarmos esse círculo, uma vez que é de Catulo a única obra que possuímos. Paratore enfatiza a importância e complexidade de nosso poeta no contexto daqueles que modernizaram a literatura:
“Para melhor fixar quanto, em toda esta transformação do gosto, é devido precisamente ao gênio de Catulo (o único poeta novus de quem possuímos a obra) e quanto é devido às tendências herdadas da poesia helenística e difundidas em todo o cenáculo, seria necessário enfrentar o problema das características da elegia helenística: ela limitou-se a cantar histórias lendárias de amor, ou encontros também a força de exprimir, diretamente, os sentidos de cada um dos poetas?
Só poucos carmes de Catulo testemunham a passagem da elegia, em Roma, do tipo narrativo ao tipo meramente lírico; os carmes de amor, de Catulo, independentemente dos metros em que são compostos, têm predominantemente forma epigramática”.
A revolução literária que os poetas novos trouxeram se caracteriza, essencialmente, pelo abandono da poesia épica homérica e enianana sendo substituído pelo gosto por breves versos dedicados a casos célebres de amor do mito (chamado de epílios); pela tendência de temas menores – (como o tema do amor, ou do pardal), revelados diretamente ou sob o disfarce dos mitos; pelo cuidado com a técnica. E “o cenáculo dos poetae novi (também) introduz em Roma, definitivamente, o gosto da poesia helenística”.
Catulo, imerso nesse contexto, se deixa levar pelas “seduções” do período helenístico, e com esses elementos ele acaba criando algo bastante moderno: a revolução da poesia Alexandrina. Como diz Paratore sobre Catulo: “o gosto pela ‘palavra antiga’ nota-se, sobretudo, através do estilo dos poetas alexandrinos, curiosos de vocábulos da antiga poesia helênica; por isso, no seu tecido lingüístico, o vocábulo antiquado é como que uma pedra preciosa encastoada no elóquio moderno, isto é, não decorre com a freqüência sistemática que descobrimos nos escritos doutros literatos, de várias épocas”.
Sua poesia influenciou os elegíacos latinos, dos quais pode ser considerado precursor, e foi admirado por poetas do nível de Virgílio e Horácio.
Livros disponíveis em português sobre Catulo
* CATULO, Caio Valério – O Cancioneiro de Lésbia [trad. e introd. Paulo Sérgio de Vasconcellos]. Editora Hucitec: São Paulo, 1991.
* CATULO, Caio Valério – O Livro de Catulo [trad, introd. e notas de João Ângelo Oliva Neto]. Edusp: São Paulo, 1996.
* FUNARI, Pedro Paulo – Grécia e Roma. Editora Contexto: São Paulo, 2001.
* VEYNE, Paul. A elegia erótica romana.Editora Brasiliense: São Paulo, 1985.
* PARATORE. História da Literatura Latina. Calouste Gulbenheian: Lisboa, 1987.